Processo de montagem
- 18 de mai. de 2017
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A peça-show Mulheres de Buço, em cartaz no teatro O Tablado na Zona Sul do Rio, se propõe a falar sobre as questões da luta feminista da atualidade. Ao todo são dez mulheres em cena, incluindo as três que fazem parte da banda: Beatriz Morgana, Carolina Repetto, Clarice Sauma, Joana Castro, Lilia Wodraschka, Lucia Barros, Manuela Llerena, Emília Rodrigues, Fernanda Pozzobon e Silvia Autuori. Confesso a minha decepção ao perceber nove mulheres brancas.
A dramaturgia da peça se ambienta em um camarim, antes de um show do grupo. Próximo de entrarem em cena, um vídeo de um de seus números-protesto feito no meio de uma das ruas do Centro do Rio viraliza na internet até parar no Jornal O Globo. O vídeo mencionado é projetado na parte de trás de portas móveis que compõem o cenário. Duas das meninas caminham até a plateia e pedem para que o público leia os comentários feitos na internet a respeito de tal publicação. Comentários misóginos e machistas que infelizmente vemos todos os dias espalhados pelas redes.
Nas letras das músicas cantadas pelas Mulheres de Buço elas prometem “fazer um rebuliço” no machismo que se perpetua e vem atravessando séculos e séculos apesar de todo o avanço da luta das mulheres e da desconstrução do patriarcado.
A peça lembra o antigo Teatro de Revista, tanto por sua comicidade ácida em vários momentos e também por sua estrutura em números musicais e teatrais intercalados. Nas palavras das diretoras Laura Araújo e Julia Stockler no programa da peça elas afirmam que “essas meninas querem falar de tudo e questionar tudo! [...] Elas querem incluir todo mundo, querem abraçar o mundo inteiro e acreditam que podem mudar a realidade.”
Elas de fato acreditam que podem mudar a realidade em que vivem. Tudo ali é feito por elas, músicas e texto, e é produto de sua vivência, de seu contexto. Entretanto me parece que a falta de diversidade em cena afeta nas questões abordadas. A luta das meninas, legítima por sinal, acaba se focando na questão dos pelos (do buço, das axilas, da vagina - visivelmente valorizados por todas), na questão dos seios tão marginalizados e erotizados, os relacionamentos abusivos e na desconstrução da mulher bela, recatada e do lar. Outros temas como por exemplo a violência doméstica, o assédio, os estupros, a desvalorização da profissional mulher nas mais variadas áreas, a diferença salarial, a erotização da mulher negra, etc., são pontos tocados “en passant” quase que superficialmente ou de maneira secundária.
Os pontos marcantes da peça-show são sem dúvida as interações com a plateia. O número da menina agradável é de um humor sarcástico que conquista o público segundos antes de lhe puxar o tapete. Elas mimam os espectadores para construir a metáfora perfeita de um relacionamento abusivo. A mulher servil e submissa que abdica de si em prol de uma relação falida. Há que se valorizar um trabalho totalmente autoral feito por meninas tão jovens, mas, mesmo assim, quando eu-espectadora finalmente pareço entrar no jogo, quando há a tentativa da construção de uma teatralidade performática, o vácuo da pesquisa carente e da dramaturgia fraca são latentes.
A meu ver, o espetáculo Mulheres de Buço ainda caminha num limbo entre as velhas e as novas formas. A criação de uma performatividade fica comprometida com o fantasma da dramaturgia linear e tradicional. Dessa maneira seus corpos que gritam contra a opressão feminina ainda encontram-se reprimidos e carregados de velhas ideologias estéticas. O que acontece em cena é que se constrói uma narrativa que tenta dar conta da performance que virá a seguir. Ambas, narrativa e corporalidade, ficam reduzidas a transmissão de uma mensagem.
O debate cênico acaba enveredando por uma psicologização do tema. A cena que abre o espetáculo por exemplo: uma ultrassonografia é projetada, a atriz entra e expõe a sua partitura simultânea àquelas imagens; quando a teatralidade está para se instaurar ela interrompe a ação e inicia uma narrativa em sobreposição. A intensidade é abafada pela intenção. As intenções delas, por mais claras que estejam para todos desde o primeiro momento, são reforçadas através da fala a cada dispositivo cênico proposto.
A cena das meninas tapa a maior parte das as lacunas. Ao público resta o simples trabalho de assistir.
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