Instintos
- 21 de jun. de 2017
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Foto: Mayara Gonçalves
Crítica da peça Woyzeck? - direção Natália Caruso Última apresentação no dia 24/06 (sábado) no Parque das Ruínas em Santa Teresa
Frente à vista deslumbrante do Rio de Janeiro e sob a beleza arquitetônica do Parque das Ruínas em Santa Teresa encontra-se a própria imagem da estranha tensão que o grotesco gera, traduzida no Woyzeck de Natalia Caruso. A recepção é mórbida, cinco corpos usando um figurino nude colado e uma maquiagem com traços de tinta preta, cada um na sua estética individual em um estilo autêntico que eu chamaria de terror-expressionista. Os cinco estão eretos com uma corda amarrada em seus pescoços na entrada do teatro, mas nada mortos por sinal.
As pessoas se acomodam e os corpos lá permanecem, mas agora de costas para o público, envolvendo-nos em um mistério perturbador preenchido de expectativas. Até que em uma fala simultânea se dá uma ruptura da tensão inicial, as palavras são de crítica ao homem e seus automatismos dentro da sociedade, seguidas de um canto suave da música natalina "noite feliz" enquanto caminham em direção ao palco. Como a música aparece logo após um discurso de critica aos padrões sociais, é sugestivo que isso esteja ligado a questões da cultura ocidental e a predominância histórica da influência religiosa vinda do cristianismo.
No palco há apenas um foco de luz em um macaco de pelúcia, há também outros objetos nas laterais sem foco. Vemos somente o fundo preto do teatro, sem cenário, fora os objetos cênicos. O macaco depois é usado como um personagem, o filho de Woyzeck com Marie. Ficamos “tête à tête” com as nossas origens, o símbolo nos recorda que não somos tão distintos do que chamamos de bicho ou selvagem, estabelecendo assim uma conexão com o nosso instinto animal que se intensifica na atuação visceral da atriz que faz Woyzeck.
A peça aponta questões políticas importantes relacionadas às pautas de gênero e feminismo. Trata-se da objetificação da mulher por meio de cantadas machistas, da cultura do estupro explicitada no funk carioca usando o exemplo da música “Baile de favela” e todo esse peso é arremessado cenicamente em cima de uma atriz transgênera. Apesar da seriedade das questões apontadas, as tensões estéticas da peça se expandem em alguns momentos e tomam um lugar de protagonismo, corre-se o risco de que em meio a tanta informação o que permaneça seja uma compreensão limitada da obra enfraquecendo os apontamentos políticos.
*Gabriel Pereira tem 21 anos, é graduando em Artes Cênicas pela PUC Rio e graduando em Publicidade pela Unicarioca.
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