Pão e círculo
- 15 de jun. de 2017
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Os demônios de Dostoiévski : Mostra BOSQUE_puc cena experimental
Abril de 2017
Lembro-me que há algumas semanas meus colegas e eu nos deparamos com o questionamento sobre a definição de teatro “intimista”. Não chegamos a nenhuma conclusão na ocasião, se é que ela existe. Depois de assistir a um trecho de “Os demônios de Dostoiévski”, dirigido por Celina Sodré e inspirado no romance de mesmo nome, dentro da programação da Mostra BOSQUE_puc cena experimental, eu continuo sem ter uma definição precisa a respeito de teatro intimista mas já posso dizer que conheço suas características.
Um público de aproximadamente quinze pessoas no total adentrou o Laboratório de Artes Cênicas na manhã de sexta-feira com uma hora de atraso. O local que já é pequeno parecia ainda menor por conta daquela escuridão. Era possível ver apenas alguns bancos posicionados em círculo em torno da cena e alguns objetos iluminados pelas velas espalhadas no ambiente e por puco mais de seis refletores com luz a dez por cento. Um quadro de Nossa Senhora com Jesus Negro em seu colo, um quadro branco - desses que escrevemos sobre eles - com alguns desenhos que não pude identificar, notas de uma moeda internacional espalhadas e um pedaço de pão.
Um homem coberto por um paletó pastel e debruçado sobre a mesa de centro cantava repetidamente um música em inglês que de vez em quando dizia “eu estou muito feliz”. Um cheiro forte de incenso que me fez pensar por um instante que eu estava adentrando a igreja para uma vigília pascal. O luto pela morte de Jesus Cristo deixavam a igreja tão sombria e perfumada quanto aquele ambiente. A cadeira em que ele estava sentado e o banco caído a sua frente se camuflavam no tapete que completava aquele cenário sombrio.
Era possível ouvir o som de uma trompa – instrumento de sopro - que permaneceria durante toda a cena. Eu demorei a identificar a origem daquela melodia e se era música gravada ou ao vivo, até finalmente perceber o músico sobre nossas cabeças, no mesanino da sala, sem nenhuma iluminação direta. O terceiro integrante daquela encenação estava igualmente camuflado na escuridão, vestido totalmente de preto e posicionado na escada na nossa frente, num dos pontos de maior breu da sala. Este último deixou que ouvíssemos sua voz primeiro para que depois ele se permitisse ser visto enquanto caminhava até o centro da cena.
Pouco público, poucos atores, ambiente pequeno, poucos elementos, e uma encenação que desrespeita os limites entre palco e plateia gerando uma proximidade muitas vezes indesejada. Estas passaram a ser para mim as características de um teatro intimista.
Talvez este tipo de teatro tenha sido fundamental para evitar o distanciamento natural diante de reflexões tão filosóficas a respeito da existência de Deus. Este era o tema do diálogo, sim, um diálogo semelhante aos de Platão em A República ou de Stanislavski em A criação da personagem. Diálogos inventados, necessários para o acompanhamento de temas complexos, indispensáveis diante da irredutibilidade da dialética.
Um revólver e um assassinato são introduzidos na cena. A tensão se agrava. Ivan havia morrido. Esta era a informação a ser passada ao público. Seu assasino? Não importava. O que importava era que um homem armado entrara em cena e estava obrigando o outro a redigir um carta atestanto a autoria do assassinato. A que custo? Sua liberdade. Se Deus não existia a morte só poderia libertá-lo de um martírio. Restava apenas convencê-lo disto. Toda aquela discussão acontecia enquanto eles repartiam o pão e dividiam o chá.
A encenação se desenrola em direção ao clímax, comum a uma peça realista e, de repente, mais um surpresa. Quando uma das personagens finalmente decide redigir a carta e suicidar, o tapete do público é puxado sem aviso prévio. Os dois atores retiram-se do interior do círculo, do picadeiro, e passam a narrar a cena ao mesmo tempo em que rodeiam o público. Enquanto ouvimos aquelas vozes externas ficamos apenas com o cenário, dentro dele todo aquele dinheiro que fora simbolicamente queimado e muitas reflexões desconcertantes a respeito da certeza primordial de um ocidental.
Estive diante então, em menos de trinta minutos, de um teatro intimista, de uma discussão filosófica, um diálogo platônico, uma cena realista e por fim de uma narrativa épica. Só restava aos atores saírem pela porta e nos deixarem com todas aquelas reflexões éticas e estéticas para resolvermos sozinhos. E foi exatamente o que aconteceu. Na última cena os dois abriram a porta do LAC e foram caminhando em direção à liberdade insubordinada a uma divindade.
*Natália Balbino, 21 anos, estudante de artes cênicas da PUC-Rio cursando o sexto período. Mulher, negra e periférica.
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