Recorte
- 18 de mai. de 2017
- 2 min de leitura

Durante os meses de temporada de Plano Sobre Queda no Poeirinha, direção de Miwa Yanagizawa e texto de Emanuel Aragão, a sala preta na Zona Sul do Rio de Janeiro nos recebe dividida em uma arquibancada, na qual nos sentamos, de frente a um cenário de uma casa comum: mesa ao centro, sofá ao lado esquerdo e uma prateleira multiuso no fundo direito. A luz, composta por uma geral não muito estourada, compõe um ambiente sem muitas especulações dramáticas.
Iniciada a peça, enredada por diálogos que contém a dramatização focada em pequenas explosões das relações cotidianas, como observar os prédios ao redor e imaginar o que se passa em cada janela ou a possibilidade de comprar uma vitrola desregulada, ela vai nos envolvendo com trocas de palavras sem complexidade lexical mas poeticamente profundas. Esses dois últimos pontos deixam de ser algo simplesmente apreciativo e ganham potência quando uma projeção, com apenas palavras, nos conta que Cléo (Liliane Rovaris) sabe que morrerá precocemente e enfrenta agora o desafio de contar isso aqueles que a rodeiam. Com esta motivação, somos levados a sair da indiferença à morte.
A personagem Isabela (Camila Márdila), que estava o tempo todo no espaço cênico, nos dá um ponto de vista desconfortado acerca do "ao redor", justamente pela sua contínua presença em cena, inclusive quando não está atuando, e atenção na vida da protagonista, a qual sabe menos de sua vida que a outra. Sua contraposição, com ar jovem e curioso, destoa e evidencia o estado quase letárgico no qual Cléo se prende. A agonia de quem anseia em dizer algo de tamanha importância nos é evidenciado pelas posturas e tensões corporais de Cléo, reafirmadas pelas palavras projetadas. Antônio (Breno Nina), costura a peça com histórias aparentemente simples, mas quando inseridas no contexto no qual se encontra são devastadoras: o sonambulismo do dia a dia é exposto e a sua indiferença de quem não sabe da morte da esposa nos associa a um lugar comum, de cegueira ou fuga da morte.
O recorte de uma vida, que a princípio é apresentada como um microcosmo, iniciada e terminada em si, é perfurada por olhares e um texto que por vezes é dirigido além do espaço montado pelo cenário, alongando a um macrocosmo no qual estamos inseridos. A peça não se justifica por certezas, mas sim por reflexões que ganham força na evidenciação da morte, seja por uma projeção ou pela simples condição humana, configurada por vida social, esquecimentos, vitrolas desreguladas, bolo com café, sofá de couro, filhos, presentes, aniversários, morte...
A imagem de um plano em queda, de um chão que desaparece, recai na complexidade da busca de algo que ainda não nos é palpável. Neste recorte especificamente, o que nos vaza da mão é o sentido da vida e o sempre ineditismo dramático da morte.
Comentários